Guerras elevam preços e ameaçam o crescimento da economia mundial - Resenha crítica - 12min Originals
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Guerras elevam preços e ameaçam o crescimento da economia mundial - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Quando uma guerra fecha uma rota marítima ou tira petróleo do mercado, a conta não fica só na região do conflito. Ela chega ao posto de gasolina, ao fertilizante que entra na lavoura, ao frete que encarece o produto na prateleira e, mais adiante, aos juros que os bancos centrais cobram para conter a alta de preços.

Três instituições acompanham esse percurso em números e publicam, algumas vezes por ano, estimativas de quanto a economia mundial deve crescer e de quanto os preços devem subir: o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, a OCDE, que reúne 38 países.

Desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, em 28 de fevereiro, e o tráfego pelo estreito de Ormuz foi interrompido, as três revisaram suas contas na mesma direção: menos crescimento e mais inflação. E as três afirmam, também na mesma direção, que o estrago foi menor do que elas próprias temiam.

O que essas projeções medem

A projeção de crescimento global é a estimativa de quanto a produção econômica do mundo inteiro deve aumentar em um ano. Parece abstrato até se colocar valor nela: a federação das indústrias alemãs, a BDI, calcula que meio ponto percentual de crescimento mundial equivale a cerca de US$ 650 bilhões, algo como o PIB da Argentina.

É esse, segundo a entidade, o tamanho do que a guerra já custou. O consenso entre analistas, afirma a BDI, é de uma perda de pelo menos meio ponto percentual de crescimento neste ano, podendo chegar a três quartos de ponto. Sem o conflito, a recuperação da demanda e o investimento em inteligência artificial provavelmente teriam elevado o crescimento mundial, e não reduzido.

Os cortes que já foram anunciados

A OCDE foi a primeira a revisar formalmente suas projeções. Em março, manteve a previsão de crescimento mundial em 2,9% para o ano, mas informou que, sem a guerra, teria revisado esse número para cima. Em junho, no relatório batizado de "Sob pressão", baixou a projeção para 2,8%, e disse que a desaceleração pode ser bem mais funda, até 2,1%, se as perturbações se arrastarem. "O choque energético decorrente do conflito no Oriente Médio é real e grave", afirmou o secretário-geral da organização, Mathias Cormann, ao apresentar o documento.

O Banco Mundial, em sua previsão de junho, cortou o crescimento global para 2,5%, o ritmo mais fraco desde o início da pandemia, e passou a projetar inflação mundial de 4%. A conta pressupunha um barril de petróleo Brent a US$ 94 em média no ano. Se as interrupções no fornecimento de energia se agravarem e atingirem os mercados financeiros, advertiu o banco, o crescimento pode cair a 1,3%.

Já o FMI chegou a 3,0% na atualização de julho, abaixo da média de 3,5% registrada em 2024 e 2025, e elevou sua projeção de inflação para 4,7%.

Por onde o choque chega até a conta

O ponto de estrangulamento é o estreito de Ormuz, passagem entre Irã e Omã por onde escoa o petróleo e o gás do Oriente Médio. Em condições normais, cerca de um quinto de toda a produção diária mundial de petróleo e de gás natural liquefeito passa por ali, segundo a agência de informação sobre energia dos Estados Unidos. Entre 80% e 90% desse volume vai para a Ásia.

Energia é apenas o primeiro efeito. Os países do Golfo responderam, em 2024, por 34% das exportações mundiais de ureia, um dos fertilizantes mais usados, e por cerca de metade do enxofre vendido no mundo, segundo a OCDE. "Fertilizantes não são apenas mais uma matéria-prima: quase metade da produção mundial de alimentos depende deles", disse à CNN Svein Tore Holsether, presidente-executivo da empresa química norueguesa Yara International. A OCDE cita Brasil, Índia, Austrália e África do Sul como países muito dependentes desses insumos vindos da região, e alerta que preços altos por muito tempo se transferem para o custo da produção agrícola e, no fim, para o dos alimentos.

O que a guerra na Ucrânia já tinha ensinado

O roteiro não é novo. Em 2022, David Malpass, que então presidia o Banco Mundial, classificou a invasão russa da Ucrânia como uma "catástrofe mundial" e disse à BBC que a alta da energia "atinge mais os pobres". Rússia e Ucrânia respondiam por 28,9% das exportações globais de trigo, segundo o JP Morgan, e o grão chegou a ser negociado em Chicago nas máximas de 14 anos.

O FMI compara os dois episódios. Em 2022, a inflação global foi aos níveis mais altos desde os anos 1970 e depois recuou sem provocar recessão. Agora há uma diferença desconfortável, segundo o Fundo: a alta recente do custo de vida deixou as expectativas de inflação mais sensíveis, e derrubar os preços pode custar mais atividade econômica. Em pesquisa deste ano, o FMI calculou que crises de custo de vida mantêm essas expectativas elevadas mesmo três anos depois, e estimou que, entre 2021 e 2024, 23 milhões de pessoas a mais do que se supunha ficaram abaixo da linha de extrema pobreza.

Por que o golpe foi menor do que se temia

"Até o momento, a economia global como um todo resistiu melhor do que se temia ao choque da guerra", escreveu o FMI. Deniz Igan, chefe da divisão de estudos econômicos mundiais do Fundo, atribuiu isso à liberação de reservas estratégicas de petróleo, ao ganho de eficiência energética e à rapidez com que o setor privado encontrou rotas e fornecedores alternativos.

A troca de fontes foi parte da adaptação. A China reduziu importações de petróleo em cerca de 5 milhões de barris por dia, apoiada nas reservas acumuladas antes do conflito, e deslocou geração elétrica de usinas a petróleo e gás para o carvão, segundo a CNN. De todo o petróleo do Oriente Médio que o mercado perdeu, quase metade foi compensada por simples redução de consumo de pessoas e empresas, calcula o JPMorgan. Do lado da oferta, produtores de fora da região elevaram a extração, com o Brasil acrescentando 800 mil barris por dia.

Há ainda um motor que puxa no sentido oposto ao da guerra. Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, descreveu o momento como o de duas forças simultâneas: um choque negativo de oferta de energia e um choque positivo de demanda vindo do investimento em inteligência artificial, que também alimenta a inflação. Nos Estados Unidos, segundo o Banco Mundial, a combinação de cortes de impostos, investimento em IA e produção doméstica de petróleo manteve a economia relativamente resiliente.

Quem paga a conta mais alta

A média global esconde uma distribuição desigual. O impacto combinado dessas forças "é extremamente desigual ao redor do mundo", disse Georgieva, observando que o boom da inteligência artificial não chega a muitos países. O FMI cortou em 1,2 ponto percentual sua projeção para o Oriente Médio e a Ásia Central, que ficou em 0,7%.

Para o Banco Mundial, o problema mais duradouro está nos países endividados. Indermit Gill, economista-chefe da instituição, afirmou que 40% dos países de baixa e média renda já estavam em sobreendividamento ou sob alto risco, o equivalente a 32 países, e que a conta aparece quando os juros sobem: quem paga o serviço da dívida corta educação e saúde. "É simplesmente um desastre em câmera lenta", disse. O relatório de junho registra dezenas de economias em desenvolvimento, excluídas China e Índia, vivendo uma "década perdida", sem reduzir a distância de renda por habitante em relação aos países ricos.

O que esses números não dizem

Cada projeção vale dentro das premissas declaradas por quem a fez. O FMI supôs que o estreito de Ormuz começaria a reabrir em meados de julho e voltaria às condições anteriores à guerra até março de 2027. O Banco Mundial supôs que as piores interrupções de energia diminuiriam até o fim de julho. A OCDE condicionou sua conta à moderação gradual dos preços de petróleo, gás e fertilizantes.

Nenhuma dessas premissas se confirmou por inteiro. Em discurso recente, Georgieva observou que o estreito seguia bloqueado e que o petróleo continuava em US$ 100 por barril, acima dos US$ 89 que o Fundo havia assumido. Os números, portanto, não dizem o que vai acontecer, e sim o que aconteceria sob certas condições. Um crescimento projetado em 3% também não significa que a guerra saiu barata: significa que, somados ganhadores e perdedores, a média ficou nesse patamar.

O que fazer com essa informação

Duas coisas podem ser acompanhadas sem esperar relatório: o preço do barril de Brent e a situação do estreito de Ormuz. São os indicadores mais imediatos de qual dos cenários desenhados pelos próprios organismos está se realizando, o mais ameno ou o mais severo.

O segundo termômetro são as projeções seguintes. Georgieva afirmou que as novas estimativas do FMI seriam divulgadas nas reuniões do Fundo em Bancoc, e que as maiores revisões para baixo atingiriam as economias devastadas pela guerra. Banco Mundial e OCDE atualizam suas contas periodicamente. Se os cortes de crescimento se aprofundarem, ou se a inflação ultrapassar os patamares de 4% a 4,7% já projetados, é sinal de que o choque deixou de ser absorvido e passou a contaminar preços de forma mais persistente.

O terceiro ponto é o juro. O Banco Central Europeu elevou suas taxas depois do início da guerra, e o FMI tem pedido que os bancos centrais priorizem a estabilidade de preços. Para quem tem dívida, financiamento em vista ou decisão de investimento, é por aí que um conflito a milhares de quilômetros chega mais rápido ao orçamento. Georgieva resumiu assim: "Mesmo que a guerra no Golfo termine em breve, o problema dos preços elevados da energia provavelmente persistirá por algum tempo."

Na sua rotina, qual decisão você ainda está tomando como se o preço da energia fosse voltar em pouco tempo ao que era antes?

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